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DIÁRIO DE CUIABÁ – Deputada Janaína diz que seu pai (José Riva) é um cara pragmático

janaina e josé riva - O Esportivo

Nessa entrevista, Eduardo Mahon conversa com Janaina Riva, a única mulher no parlamento mato-grossense, filha do deputado mais controvertido da história do Estado e favorita nas pesquisas para a reeleição.

Mahon: Diga uma forma de que a minha primeira pergunta não seja relacionada ao seu pai. Qual seria a primeira pergunta para falar da Janaína sem falar do Riva?

Janaína: Qual seria a minha identidade na Assembleia Legislativa?

Mahon: Então, qual é a sua maior identidade na Assembleia Legislativa?

Janaína: Bem, eu tenho uma enorme facilidade de falar com todos os segmentos. Recebo diariamente representantes dos mais variados setores, o que me tornou uma legítima representante deles, de todos. Não consegui ter uma bandeira exclusiva na Assembleia.

Mahon: Você se profissionaliza na política? Como funciona o seu dia?

Janaína: Sim, a política é profissionalizante. Não há como me dar ao luxo de ficar em casa. Preciso ir todos os dias, arrumada, disposta. Acordo às 6, vou malhar, tomo café, me arrumo e parto pra Assembleia. Tem gente que chega mais cedo e gente que não vai. Quero dar qualidade no tempo de atendimento.

Mahon: Como é que pode o deputado não estar presente?

Janaína: É que ele atende uma base. O Baiano Filho focou na Região do Araguaia e de lá pode trabalhar e sobreviver politicamente. Para mim, o eleitor quer falar pessoalmente comigo. Nas questões do Fórum Sindical, por exemplo, os representantes queriam que os deputados estivessem integralmente no local.

Mahon: Você já domina o Regimento?

Janaína: Ainda não. Estudei muito, mas não domino integralmente o Regimento. Uma proposta interessante seria um consultor legislativo, independente da Mesa. Estudar o Regimento é essencial, inclusive para ser oposição.

Mahon: No meio de uma reunião, mais uma das milhares de reuniões, você sente que vai enlouquecer?

Janaína: Muitas vezes já me questionei se era preciso entrar naquele debate. Mas é mais forte do que eu. Antes de pensar, já entrei na polêmica. Talvez isso seja da minha personalidade, mas não consigo ficar de fora dos grandes debates. Mesmo que não estivesse eleita, eu acompanharia a política de qualquer forma. Em todo o caso, chego em casa desgastada. Nos dias de sessão normal, chego às 19:30. Quando há polêmica, uma sessão difícil, chego às 23:30.

Mahon: Você sonha com política?

Janaína: Sonho. Sonho que estou na Assembleia, brigando. Eu desgasto os dentes, acordo com dor de cabeça. No começo, eu não tinha o limite. Hoje em dia, não deixo de entrar no debate, mas tento me desgastar menos. Por exemplo -preservar a Assembleia, era uma coisa que eu não fazia no começo.

Mahon: O poder envelhece?

Janaína: Fisicamente? Talvez sim. Ontem mesmo, cheguei de uma reunião, onde me disseram que eu estava com um aspecto triste. Não estava triste, mas estava arrasada. Mas mentalmente, a política rejuvenesce.

Mahon: Todas as questões de Mato Grosso passam pela Assembleia? Ou há vários temas que nem chegam a ser debatidos?

Janaína: Tudo passa pela Assembleia. Nós sabemos. Há cidades que criam grupos de discussão sobre problemas locais e fazem questão de adicionar todos os deputados. De vez em quando, eu saio. Já aprenderam a lidar com a minha espontaneidade. Não dá pra participar de tudo, mas os deputados acabam sabendo de tudo. Os deputados líderes no parlamento ficam encarregados de noticiar aos outros. No meu caso, me coloco a par da discussão, mesmo em municípios sem muita afinidade eleitoral comigo. Isso aprendi em casa. Deixo uma porta aberta para o contato com o outro parlamentar. Esse foi o exemplo da discussão da Unemat, por exemplo.

Mahon: Cuiabá conhece Mato Grosso?

Janaína: Não. Cuiabá não tem a mínima ideia de Mato Grosso. A complexidade dos problemas do interior é muito maior. A ausência de UTI’s nas cidades do interior impossibilitam ter filho naquela localidade. É o caso de Poconé. Isso magoa os cidadãos de Poconé. Em Juara, a 700 km da capital, é muito comum perder paciente com liminar judicial na mão. Não dá tempo de buscar, nem de ambulância, nem de avião. A logística do Estado é ruim. Muita gente do interior sonha em conhecer a capital: não há onde ficar, não há transporte, não há uma programação. Esses cidadãos não tem acesso à cultura, por exemplo. Nunca foram ao cinema, ao teatro.

Mahon: E a via rica? A 163? Não são cidades ricas? Não são padrões de riqueza, como enchem o bico por aí?

Janaína: São cidades com enorme desigualdades sociais, não se engane. Além de pobreza – que não falta – há preconceitos enormes: contra a mulher, contra o gay, contra o negro. Não são cidades perfeitas. Mesmo com o IDH alto, é preciso perceber que a extrema pobreza não está atendida por uma boa escola. Não existe em Mato Grosso estímulo aos pequenos. A agricultura familiar que é uma saída não é praticada como regra. Dia desses, conversei com uma médica de São Paulo que me dizia da importância dos cuidados das mães com plantas. Ora, em São Paulo é praticado, mas em Mato Grosso não.

Mahon: Então, essa propalada riqueza da soja, do milho, do algodão não enriquece o povo do entorno?

Janaína: Gera renda, gera emprego, mas não distribui riqueza. O fato de gerar emprego já é ótimo, mas aqueles que ficam bilionários ainda estão muito longe dos empregados. Mato Grosso não pode ser conhecido apenas por isso. Há outros setores para dar atenção, como por exemplo, a cadeia do leite. O que eles querem? Uma boa estrada e aparelhos resfriadores. Cria empregos! Gera autonomia financeira com pouquíssimo investimento.

Mahon: Você não fica incomodada com o orçamento da Assembleia? Considerando 24 deputados, o que justifica 500 milhões de reais?

Janaína: Eu não vejo a questão orçamentária da Assembleia. Sem estar na Mesa, essa questão não passa por mim. Realmente, concordo que é desconfortável uma instituição ganhar tanto e render tão pouco. Hoje, deixamos a desejar em termos de representatividade. A ALMT não representa a maioria dos eleitores. Se qualquer pesquisa fosse feita, penso que 70% da população diria isso. Mas ninguém quer falar, por exemplo, do plano de cargos, carreiras e salários na Assembleia. Temos hoje um plano que um simples curso de Word já dá direito à progressão. Com um PCCS estruturado, o impacto da correção seria menor do que o ano que vem, por exemplo. Às vezes é melhor se planejar para o longo prazo do que manter a situação atual. O grosso do que se gasta na ALMT é o servidor. São uns 1200 comissionados e uns 600 concursados. Isso, em termos de servidores ativos. A demanda existe. Tiro pelo meu gabinete. Gostaria de ter outros colaboradores noutras áreas. Queria ter um técnico especializado em esporte, em cultura, mas não posso.

Mahon: Quem faz a pauta da discussão?

Janaína: O Presidente. Só o Presidente com a Mesa. Há dificuldades para os deputados em geral. Não consigo fazer uma PEC sozinha, por exemplo. Sou obrigada a pegar outras sete assinaturas. Hoje em dia, é fácil pegar assinaturas, porque todo mundo virou oposição ao Taques. Mas, no começo do meu mandato, esses patamares eram um bloqueio. Gostaria muito de aprovar a não continuidade na Mesa do presidente, do 1º secretário, mas não consigo desenvolver essa discussão de jeito nenhum.

Mahon: Agora, quero falar do seu pai. Quando você lembra do que ele fez, o que você se vê repetindo e o que você jamais faria?

Janaína: Meu pai era um cara pragmático. Qualquer discussão passava por ele. Atendia diretamente municípios por causa dessa enorme força. Eu não consigo impor a presença física que ele mantinha.

Mahon: Em que medida seu pai sacrificou a família?

Janaína: Não quero repetir esse modelo. Não vou deixar minha família. Meus filhos sentem muito a minha falta. Eu também sinto. Já senti mágoa e raiva do meu pai. Pensava – ele prefere os outros do que eu. Festa junina, Natal, Réveillon, ele sentava à mesa falando ao telefone, comia e voltava pro quarto falando ao telefone. Isso não tive na minha casa. Hoje eu tenho essa tranquilidade. No período eleitoral, fico ausente. Mas, afora eleição, durmo abraçada com meus filhos, vou à escola, pergunto como foi o dia. Certa vez, pedi verificação de quórum por causa do horário do almoço para estar em casa. Quando deu 11:30, pedi a verificação. Do contrário, não poderia almoçar com meus filhos. Essa também é a peculiaridade de uma mulher no parlamento.

Mahon: No seu primeiro mandato, o quanto de Janaína Riva foi Riva?

Janaína: 98%. Eu entrei filha do Riva. Mas vou voltar Janaína. A ausência dele foi muito difícil. Passou 1 ano preso e eu precisava me virar sozinha. Foi muito desgastante pessoalmente, mas politicamente foi fundamental. Comparo com saber andar de bicicleta: eu andava de rodinhas. Sem meu pai, ando livre. Cresci muito, às duras penas. Dei muitas cabeças. Muitas! Mas o meu diferencial é que peço desculpas. Dia desses fui muito agressiva com uma prefeita em pleno mandato. Pedi desculpas logo em seguida. Uma das maiores cabeçadas foi um áudio que gravei chamando o Governador de “viado”. Lembro do Dante brigando com meu pai – era xingamento pra cá, pra lá. Mas na boca de uma mulher, a coisa fica diferente. Naquele momento, era a única parlamentar de oposição. Eu estava bem isolada.

Mahon: Você pedia conselho ao seu pai sobre os temas discutidos no dia?

Janaína: Sim, fazia muito. Algumas frentes que defendi, meu pai não faria da mesma forma. Certas ocasiões, Wilson apontava que meu pai votou em sentido contrário ao meu. Não me importava. Uma pessoa é diferente da outra. Ainda assim, peço opiniões ao meu pai que me apoia mesmo que a minha posição não coincida com a dele. Quantos deputados têm esse privilégio de ter uma pessoa com 20 anos de experiência? Ninguém tem. É um grande consultor. Talvez o melhor. No começo, meu pai nem queria saber do meu dia. Ele teve muitas decepções com os colegas.

Mahon: Em que ponto você foi obrigada a deixar a mágoa do seu pai e a sua própria na gaveta para conviver com colegas?

Janaína: Não há como herdar as decepções do meu pai. Eu preciso me construir e as minhas relações. São momentos diferentes, perspectivas diferentes. Alguns sentimentos do meu pai foram transmitidos pra mim. A Unemat que era a menina dos olhos dele, por exemplo, tomou uma importância enorme na minha agenda.

Mahon: Você já sentiu que a sua presença constrangia outros deputados?

Janaína: Sim, sobretudo no início. Justamente por isso, fazia questão de estar presente, de olhar diretamente. Quebrei alguns tabus e preconceitos. De qualquer forma, a maioria dos políticos não se constrange com nada. Tive que engolir tudo isso. Mesmo assim, continuei firme separando as coisas. Não posso ser advogada do meu pai.

Mahon: Não é muito cansativo – ser advogada de José Geraldo Riva?

Janaína: Em vários momentos, quando eu achava justo, fiz o papel de advogada. Foi uma defesa que muita gente reconhece. O Fethab foi um grande tema, por exemplo. Tive que fazer esse enfrentamento em defesa do meu pai e do próprio Fethab. As pessoas sentem muita falta dele na Assembleia. Eu não posso o que meu pai podia. Ele deixou um vazio enorme de representação, de atendimento, de resolução de problemas do dia a dia. Meu pai era acionado até para encontrar gente sumida, para acompanhar doentes, para arrumar passagens. Já vi meu pai arrumar óleo diesel com cheque particular. Hoje entendo que é impossível fazer o mesmo.

Mahon: Se você fosse juíza do seu pai, você o condenaria?

Janaína: Em alguns casos sim, noutros não.

Mahon: Até que ponto o Riva agiu por causa de uma conjuntura?

Janaína: Para a cultura política da época, não sobra ninguém que deixava de fazer o que meu pai fazia. Nenhum deputado, nenhum governador. O Estado era completamente ausente. Governador não recebia, enrolava. Meu pai recebia todo mundo, era a referência do interior.

Mahon: Essa cultura acabou?

Janaína: Ainda existe. Meu pai não acreditava que a minha maneira de fazer política iria dar certo. E deu! As coisas mudam muito.

Mahon: Você era a “deputada Riva”. Hoje em dia, qual o porcentual de Riva em você?

Janaína: 50%. Já tenho agora a minha fatia do eleitorado. Conquistado por mim. Até mesmo os eleitores do meu pai reconhecem o meu trabalho na Assembleia.

Mahon: Vamos transferir a discussão para o Emanuelzinho. Você acha que esse fenômeno é natural, legítimo? Se fosse um dos seus filhos, o que você faria?

Janaína: Apoiaria 100%. Não entendo porque as pessoas condenam isso. Os filhos de médicos querem ser médicos, de advogados etc. O que acho anormal é que filhos de políticos não gostarem de política. Todo mundo que conheço que é parente de político adora a política. É a mesma coisa do filho de um médico que diz – odeio a medicina. Alguma coisa de errado acontece nessas famílias. O normal é que os pais influenciem nas escolhas dos filhos com o próprios exemplo. A Sofia não vai seguir o meu caminho, me parece, mas ela gosta, ela admira.

Mahon: Se você ganhar a eleição com as expectativas das pesquisas, o que você vai fazer? Entra ou não na Mesa Diretora?

Janaína: Eu gostaria muito. No meu primeiro mandato, fiquei de fora e foi a melhor coisa que fiz. Muitos deputados vão se reeleger e já têm convívio comigo. Sou para eles uma referência de confiança. Pode ser que, num entendimento coletivo, eles mesmos me indique a uma posição, seja lá qual for. Isso funciona muito no dia a dia da política: “Não vou, mas quero que ela vá”.

Mahon: Deixa eu entender uma mudança recente: se na gestão anterior, do Silval, as coisas corriam frouxas e agora, na gestão Taques, as coisas mudaram muito, nós podemos falar que uma nova forma de austeridade apareceu por causa do Governo Pedro Taques?

Janaína: Não, de forma alguma. Taques não fez a menor diferença. Aliás, eu diria a você que nunca as coisas correram tão “frouxas” como agora. O que mudou foram os órgãos de controle. Os deputados estão vendo que podem ser presos, como muitos foram. Da mesma forma que o Paulo Taques, mesmo com o poder que eles tinham. Não adianta mais mandato, mais cargo. Quando o Judiciário funciona, os controles funcionam, a coisa muda na política.

Mahon: De quantos deputados você ouviu que tinham medo do Pedro Taques?

Janaína: De alguns. Eles achavam que Taques tinha uma influência enorme em Brasília. Uma das coisas que mais me chocou foi a reunião do Taques com o Rui Ramos, o presidente do Tribunal de Justiça. Isso foi muito ruim. O Taques era temido por causa dos contatos dele. Com o tempo, nós percebemos que ele não é tão forte assim, não tem tantos contatos assim, não tem tanta força assim. No começo, as pessoas comentavam – nossa como ele é influente no Ministério Público! Pensando mais maduramente, o que ele tinha era credibilidade, não favores. Entre a palavra dele e a dos demais políticos, os promotores e juízes daria mais crédito à dele. Depois desse governo, ninguém mais tem essa impressão.

Mahon: Agora, falemos de eleições. Eu sei que você vai votar obviamente no Wellington. Mas faça uma análise fria do quadro.

Janaína: Se houver um único turno, dá Mauro. Se houver dois, vence Wellington.

Mahon: Qual a diferença entre um Governador eleito em primeiro e outro, que sofreu no segundo turno?

Janaína: Nenhuma diferença. O Governador tem a caneta. E ponto. Se fosse o Presidente da Assembleia a assumir o governo, seria a mesmíssima coisa.

Mahon: Qual a sua razão em dizer que, se houver segundo turno, Wellington ganha?

Janaína: O grupo do Governador Pedro Taques não irá jamais com Mauro Mendes. Mesmo com o desgaste pessoal do governador, há um conjunto de pessoas por trás, com história política. Só essa migração já rende um empate técnico. Uma das características do Wellington é ser agregador. A humildade é o ponto forte dele. O Estado está carente de gente simples, sem arrogância.

Mahon: Qual seria a diferença entre o erro do Taques sair do Senado e o erro do Wellington sair do Senado nas mesmas condições?

Janaína: É simples. Pedro Taques só errou ao sair do Senado porque fez uma péssima gestão. Se tivesse feito uma grande administração, teria sido um acerto.

Mahon: Qual seria a diferença entre um Governo Mauro e um Governo Wellington?

Janaína: O primeiro é mais centralizador, o segundo é mais acessível. O Mauro se voltará para a infraestrutura e para as finanças públicas e o Wellington daria mais atenção às pessoas, aos problemas humanos mais urgentes.